Se toma um calmante ou um comprimido para dormir há vários meses ou anos e gostaria de reduzir ou parar, é possível fazê-lo com segurança. O segredo é não ter pressa e não fazer o caminho sozinho.
Para quem é esta página
Para quem toma, de forma diária ou quase diária, medicamentos como o alprazolam (Xanax), o lorazepam (Lorenin), o loflazepato de etilo (Victan), o bromazepam (Bromalex), o clorazepato (Medipax), o diazepam (Valium) ou comprimidos para dormir como o zolpidem (Stilnox). Estes medicamentos pertencem ao grupo das benzodiazepinas ou dos fármacos com ação semelhante.
Portugal está entre os países do mundo onde estes medicamentos são mais consumidos. Muitas pessoas começaram a tomá-los numa fase difícil e continuaram durante anos, sem que alguém lhes propusesse parar.
Porque é que deixam de resultar
As benzodiazepinas aliviam a ansiedade e ajudam a dormir de forma rápida. Por isso são úteis em situações agudas e por pouco tempo. A Direção-Geral da Saúde recomenda, em regra, até 4 semanas na insónia e até 8 a 12 semanas na ansiedade.
Com o uso continuado, o cérebro habitua-se. A mesma dose passa a fazer menos efeito. É a tolerância. Ao mesmo tempo, o organismo passa a depender do medicamento para se manter estável. Muitas pessoas sentem que, ao fim de algum tempo, o comprimido já não as ajuda, mas que também não conseguem passar sem ele.
Os riscos do uso prolongado
- Dificuldades de memória e de concentração.
- Sonolência, reflexos mais lentos e maior risco de acidentes de viação.
- Tonturas e quedas, sobretudo nas pessoas mais velhas.
- Estados de confusão nos idosos.
- Efeito perigoso quando associadas ao álcool ou a outros sedativos.
- Sensação de embotamento emocional ou de tristeza.
Nunca pare de repente
Se toma uma benzodiazepina há mais de algumas semanas, não a pare de um dia para o outro. A interrupção brusca pode causar sintomas de abstinência intensos e, em casos raros, convulsões, que podem ser graves. O alprazolam e o lorazepam são dos que mais causam este problema.
Se já parou de repente e se está a sentir mal, fale com o seu médico com urgência ou dirija-se a um serviço de urgência.
Como funciona a redução
A forma segura de deixar estes medicamentos é reduzir a dose aos poucos, ao longo de meses. A maioria das pessoas precisa de pelo menos 10 semanas. Quem os toma há muitos anos pode precisar de bastante mais tempo, e isso não é um fracasso.
- É uma decisão sua. A redução não deve ser imposta. Começa quando se sentir preparado(a) e avança ao seu ritmo.
- O plano é feito à medida. Depende do medicamento, da dose, do tempo de uso e da forma como reage a cada passo. Por vezes compensa trocar para um medicamento de ação mais longa antes de começar a reduzir.
- Recebe o plano por escrito, com as doses de cada fase.
- As reduções ficam mais pequenas perto do fim. É habitual a última parte ser a mais difícil, por isso os passos finais são mais lentos.
- Há tempo para tratar o que estava por trás. A ansiedade e a insónia têm outros tratamentos, com medicação que não cria dependência e com psicoterapia.
Não tente reduzir sozinho(a) com base nesta página. Cada plano tem de ser definido com o seu médico.
O que pode sentir pelo caminho
Durante a redução é comum sentir, durante alguns dias depois de cada passo:
- mais ansiedade, irritabilidade ou inquietação;
- dificuldade em dormir;
- tremores, tonturas, dores de cabeça ou náuseas;
- maior sensibilidade a sons, luz ou cheiros;
- uma sensação estranha de distância em relação a si próprio(a) ou ao que o(a) rodeia.
Estes sintomas não querem dizer que precisa do medicamento nem que não vai conseguir. Querem dizer que o seu organismo está a reajustar-se e que, provavelmente, o ritmo tem de ser mais lento. Nesse caso, mantém-se a dose até os sintomas passarem e só depois se avança, com passos mais pequenos.
Alguns destes sintomas parecem a ansiedade de antes. Distinguir uma coisa da outra faz parte do acompanhamento.
Como posso ajudar
Sou médico psiquiatra e acompanho doentes na redução de benzodiazepinas e já dei formação a equipas de cuidados de saúde primários sobre o tema. Acompanho este processo em teleconsulta, em todo o país e para portugueses noutros países da União Europeia.
Na primeira consulta revemos a medicação que toma, a história do seu uso e o que espera do processo. Se fizer sentido para si, saímos com um plano escrito. As consultas seguintes acompanham cada fase.
Marcar consultaEste texto é informativo e não substitui uma avaliação médica. Em situação de risco imediato, ligue 112.